70 anos, professora.

“Este caso clínico foi diagnosticado como Transtorno Bipolar pelo psiquiatra que acompanha a paciente bem como pelos psiquiatras anteriores. No primeiro encontro a paciente estava desorientada: não conseguia prender a atenção na conversa, falava sem conexão com as perguntas que eu fazia e seu olhar estava distante.

Nas sessões seguintes ela me reconheceu e se colocou mais, sentiu-se mais à vontade e com vontade de colocar pra fora o que a perturbava: estava com muito medo, temia que as pessoas a levassem pra cadeia, tanto seus familiares, como desconhecidos, acreditava que todas as pessoas a consideravam culpada, as construções que via na rua eram possíveis cadeias, imaginava que a televisão tinha dispositivos que a vigiavam. Vivia se escondendo, sair de casa era desesperador! Ficava a maior parte do tempo dentro do quarto, com a janela e cortinas fechadas. Parecia que a vida era desamparo e abandono apesar da presença da família. Me perguntou se eu não vira nada nos jornais, revistas, ou televisão sobre um crime que ela pudesse ter cometido. Dizia que sentia uma culpa enorme mas não sabia o que tinha feito de errado.

Mais tarde confidenciou que o sofrimento interno era tão devastador que pensara em suicídio várias vezes, e só não o fez com medo de não alcançar de fato este objetivo ficando com paralisias ou seqüelas se pulasse do prédio. A medida que se abria eu via uma mulher que tinha vivido a vida toda dentro de instituições sociais e religiosas autoritárias e limitantes. Talvez em toda sua vida ninguém tenha parado para ouví-la e compreendê-la sem críticas.

Escutando-a, descobri uma mulher com profundo desejo de ser o seu ser, não o que os outros queriam. Isto pra ela significava conhecimento e espiritualidade verdadeiros impulsionando-a no sentido da cura. Também tinha muita curiosidade por tudo que significava saúde. Depois de 2 meses de tratamento passou a freqüentar, vários dias por semana, um espaço que promovia encontros sobre saúde, e fez isso por meses. Seu medo e culpa tinham se reduzido bastante.

O primeiro ano de tratamento mexeu em feridas profundas, densas. Ela dizia sair das sessões e só ter força para pensar no que havia mexido. Ao mesmo tempo sua inteligência e pensar filosóficos começaram a ocupar espaço construindo e sendo construídos por uma identidade que passava a se reconhecer através de seus próprios olhos.

No segundo ano de tratamento a perspicácia de seu pensamento e o sentimento de autonomia tem se destacado o que faz com que ela se posicione cada vez mais, sem se intimidar com os desafios que a vida apresenta. Em uma sessão ela soltou a seguinte pérola: “Sabe, Giovana, o ser humano não se sente inteiro porque não quer conhecer o seu lado ruim.”

Duas pessoas próximas morreram. Ela surpreendeu-se com a força com que atravessou estes episódios prestando apoio aos familiares. Depois que o velório e o enterro passaram o peso do momento também passou. Além disso, atravessou com coragem um processo muito doloroso no qual precisou até de morfina para suportar a dor. E saiu mais forte ainda! Mais dona de si! Tenho certeza que todo este desenvolvimento é mérito da paciente. Sua coragem e determinação são marcantes. Também acredito que o EMDR e o Brainspotting contribuíram, significativamente, agilizando seu instinto de cura.

Atualmente, a paciente participa de trabalhos semanais em uma ONG, cursos de informática e tem mais planos para 2009! Segundo ela: “Eu estou ficando uma belezinha!”
A terapia continua, afinal, como a paciente diz “eu não quero ficar esperando a morte(…) quero entrar mais em contato com o meu ser, quero evoluir”.”

*Todos os depoimentos e casos clínicos tem autorização expressa dos pacientes ou de seus responsáveis.