Curiosidade Mórbida
Reflexões sobre relações de ajuda e de abuso

Já me cansei de gente gastando tempo em querer saber dos acertos e desacertos da vida alheia. Nisso, o verdadeiro e o falso não importam, o que importa é um assunto distante da vida real do curioso,  é a notícia da queda do outro.
Se o outro não caiu de fato… não importa, o que importa é o cheiro de sangue  “do ferido”. É a perda de vida que o curioso busca. Assim, se sente ilusoriamente acima, sem ver a posição que cria na relação com o outro: um urubu buscando mortes…

Essa miséria de realidade empobrece o mundo: não cria valor real, pão real, casa real e dinheiro real. Não cria valor de direito, casa de direito e dinheiro de direito.
O que mais tem me assustado, até mesmo pela minha profissão (sou psicóloga), é quando esta miséria de realidade é continuada dentro dos consultórios de terapias alternativas ou não. Afinal, a verdade existe independente de alternativas.

A miséria de realidade causa doença. E aqui não me refiro apenas aos surtos psicóticos, estes, por vezes, são dores da lucidez.
Os urubus que querem se transformar em águias têm minha mais profunda admiração e respeito. Recebo-os com muito carinho para o tratamento.
Optar por um tratamento já é uma mudança de posição, já não são mais urubus, começaram a sentir repulsa do sangue morto e dos seus companheiros de sobrevôo. Por mais que não tenham se dado conta ainda, a percepção está mudando.
Mas e quando quem abre a porta do consultório é um urubu? É aí que vejo uma das piores curiosidades mórbidas, o abuso da dor e fragilidade humanas quando se precisa de socorro.

Virá um momento de transformação real? Ou mais um floreio da ilusão da ilusão?  Se ver por cima quando na verdade o que se vê em baixo é o próprio vazio…
Cuidado com as escolhas… cuidado com as companhias…
Os profissionais da saúde  e outros cuidadores como padres, pastores e consultores precisam se dar conta das escolhas pra não aumentar a anemia emocional: do paciente e de si mesmo.
Como é importante escolher! Saber escolher! Escolher a profissão, escolher o profissional.

Não pensem que porque sou psicóloga e esteja escrevendo isso, ache que estou acima do bem e do mal: estar acima pode ser vôo de urubus… Mas vejo a responsabilidade de alimentar a mim com realidade e criatividade possível. Possibilidade envolve vida. Alimento traz continuidade. Quem se descuida cai na anemia de vida.
Quando vejo o sofrimento dos meus pacientes, me pergunto o que de fato preciso saber: o que de fato preciso perguntar?
Profissionais da saúde precisam antes de mais nada dar espaço e acolhida real para o que já perturba, para o sangue que já está escorrendo…
Às vezes, quem cala enxerga.
Às vezes, quem cala respeita.

Por Giovana Tessaro – Curitiba, março de 2008