Scott Johnson
Oakland Tribune
30/03/2011
Tradução Bernadete Alves Cordeiro
psicóloga brasiliense  bacordeiro@gmail.com

O experimento foi projetado para monitorar o que acontece quando o cérebro humano absorve novas informações. O cientista-chefe, Bessel van der Kolk, presidente da Sociedade Internacional para Estudos do Estresse Traumático, quis verificar as diferenças entre cérebros cronicamente traumatizados e cérebros normais. Ele supôs que o cérebro detém a chave para as raízes e o tratamento de traumas graves.

O que Bessel van der Kolk e dezenas de outros cientistas ao redor do mundo continuam descobrindo  poderia ter consequências de longo alcance para milhões de americanos, especialmente em Oakland, onde milhares de pessoas, muitas delas crianças, estão regularmente expostos a níveis crônicos de estresse e trauma.

Esta ciência está quebrando barreiras em diversas áreas tais como a neurociência, mapeamento cerebral, meditação e psicoterapia. Sem contar o valor científico, os resultados poderiam percorrer um longo caminho na direção da compreensão e tratamento de famílias e comunidades afetadas por assassinatos e violência.

Van der Kolk sabia que um cérebro normal faz duas coisas com novas informações. Ele gera um impulso como uma espécie de filtro, N½’200, uma “onda inibidora”, que permite que o cérebro se concentre nas coisas mais importantes. Então ele cria um impulso P½’300 que permite ao cérebro aprender com a experiência. Ele logo descobriu que pessoas traumatizadas não geram o a onda inibidora N½’200 e nem geram uma boa qualidade de P½’300.

“Este estudo mudou toda a minha compreensão a respeito do que é o trauma”, disse van der Kolk, “Trauma já não era sobre algo que aconteceu há muito tempo, era sobre a impossibilidade de se comprometer plenamente com o presente. Nada de novo estava chegando ao cérebro.”

A ciência em torno do trauma crônico está evoluindo rapidamente e em novos caminhos. Mesmo enquanto os cientistas descobrem novas evidências sobre o que está acontecendo no cérebro de pessoas cronicamente traumatizadas, estão surgindo novas técnicas intrigantes para lidar com os efeitos. Os pesquisadores estão concentrando suas energias mais intensamente em crianças nas quais o trauma precoce muitas vezes pode se tornar um obstáculo debilitante ao longo da vida; o tratamento precoce oferece a melhor chance de recuperação completa e eficaz.

“O trauma é a raiz de tudo nessas crianças”, disse Debra Wesselmann, co-fundadora do Centro de Apego e Trauma de Nebraska. “Suas redes neurais estão cheias de trauma, elas têm muito pouco de informação adaptável em seus cérebros.”

Grandes desafios
Cientistas e terapeutas acreditam agora que os efeitos a longo prazo de traumas na infância são mais profundos e preocupantes do que se pensava. “Um achado consistente após o controle do tamanho corporal e tamanho da cabeça foi que as crianças traumatizadas têm cérebros menores, em relação às crianças que não tenham sido traumatizadas”, disse Frank Putnam, diretor do Centro de Tratamento de Trauma de replicação do Hospital Infantil de Cincinnati.

Diversos estudos constataram que a substância branca, tecido do cérebro que faz conexões dentro da substância cinzenta rica em neurônios, está diminuída em crianças traumatizadas. Isso significa menos neurônios fazendo menos conexões – e fazer conexões é o que cria QIs mais altos.

Apenas o começo
Um estudo Putnam de 2010 descobriu que crianças abusadas sexualmente apresentaram níveis de cortisol acima do normal, um hormônio que pode salvar vidas em situações de emergência, mas que destrói tecido cerebral se em grandes quantidades. Traumas repetidos causaram o excesso de secreção de cortisol, e uma posterior falha do cérebro e do corpo na drenagem do  hormônio.

O trauma pode até afetar a capacidade do cérebro em saber onde ele está no espaço físico. Um estudo canadense descobriu que uma parte do cérebro que confirma a existência física não estava ativa em pessoas traumatizadas.”Trauma é o resíduo do que essas experiências deixam em seu corpo”, disse van der Kolk. “O Cérebros das pessoas muda por causa do trauma.”

Os efeitos disto são conhecidos: comportamento anti-social, entorpecimento emocional, agressão, violência e dissociação física e mental – as marcas, em outras palavras, dos estados emocionais dos muitos jovens traumatizados de várias cidades como Oakland e Richmond. O que a ciência está ajudando a decifrar agora é como isto funciona no cérebro. Experiências traumáticas, como tiroteios, estupros, roubos ou abuso emocional deixam uma marca na parte central do cérebro chamada córtex pré-frontal medial, o que ajuda a regular o nosso relacionamento com nós mesmos – auto-refletir, auto-observar e estabelecer relações sociais com os outros.

O trauma também turva as conexões entre os lados direito e esquerdo do cérebro, afetando a fala e as habilidades cognitivas. “Essas coisas mudam o cérebro, que se torna cronicamente medroso, ou a nada teme, ou acha que a melhor coisa a fazer antes que alguém te machuque é machucá-los”, disse van der Kolk.

Chances de Cura
Um grande problema que os cientistas estão apenas começando a lidar é como muitas vezes as vítimas de trauma crônico são incapazes de escapar do ambiente traumático ao redor deles. Mas estudos recentes sugerem que há esperança.

Técnicas como a EMDR, neuro-feedback e até mesmo atenção e meditação são eficazes como ferramentas terapêuticas para pessoas presas em ambientes traumáticos.  A EMDR existe a cerca de uma década, mas só agora está ganhando força nos tratamento complexo de transtorno de estresse pós-traumático. Estudos recentes em pessoas que receberam tratamento com EMDR mostram uma taxa de melhora de 91%.

A terapia trabalha através do acesso à  memórias por meio de estimulação bilateral dos dois hemisférios cerebrais e, em seguida reprocessamento dos mesmos para tirá-los da carga emocional do trauma. Francine Shapiro, que foi pioneira no uso de EMDR, disse que há indícios de que vítimas de trauma construíram “resiliência”, através do tratamento.

Em um estudo, refugiados palestinos traumatizados que receberam a terapia EMDR foram interrompidos por outro trauma. “A expectativa era  que eles teriam que começar de novo”, afirmou Shapiro. “Mas o que aconteceu foi resiliência”. O mesmo efeito de resiliência ocorreu em um estudo de 2009 em contadores de um banco alemão que tinha sido assaltados várias vezes com uma arma.

Outras ferramentas também animaram os neurocientistas recentemente. Van der Kolk teve resultados positivos entre as pessoas traumatizadas utilizando neuro-feedback, quando os pacientes são “realimentados” com imagens de sua atividade cerebral que correspondem aos seus estados mentais. Com treinamento, eles podem aprender como acessar as ondas teta profundas do cérebro que correspondem aos estados de tranqüilidade emocional e pensamento racional.

Van der Kolk está trabalhando com cerca de 50 crianças no Centro de Pesquisa de Trauma, em Boston. Ele disse que acredita que o tratamento de uma pessoa traumatizada em um ambiente traumático é similar a criação de “uma ilha de estabilidade” em torno da qual outros podem se reunir e pela qual eles possam aprender a lidar melhor. “Eu acho que as 50 crianças que nós temos não são mais os futuros estupradores e assassinos da América”, disse ele em um simpósio em Los Angeles no início deste mês na cura do trauma.

A mais nova área de estudo, também pode ser uma das mais promissoras. Os neurocientistas, médicos e pesquisadores estão cada vez mais voltando sua atenção para uma área que budistas e filósofos têm estudado por mais de dois milênios: a plena consciência. O número de estudos de casos científicos de como a atenção pode ajudar vítimas de traumas tem crescido exponencialmente nos últimos anos.

Uma razão é que a atenção está cada vez mais sendo associada aos tipos de experiências positivas sociais e emocionais que as vítimas de trauma, muitas vezes já não sentem, o que os médicos descrevem como entorpecimento emocional.

Ruth Lanius, uma professora adjunta do Departamento de Psiquiatria da Universidade de Western Ontario, tem estudado a consciência emocional e atenção no Transtorno de Estresse Pós Traumático (TEPT) por vários anos, e encontrou correlação direta entre consciência e atividade cerebral. Usando exames de ressonância magnética, descobriu que quanto mais atentos seus pacientes eram,  maior ativação apareceu em uma área do cérebro chamada córtex pré-frontal dorsomedial – uma região do cérebro envolvida na consciência reflexiva.

Há uma boa razão para todo esse interesse nas ciências do cérebro e sua influência sobre a jovens traumatizados. Por um lado, é relativamente barato: “Sabemos mais sobre como o trauma afeta crianças do que sabemos sobre a esquizofrenia ou mesmo o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) , ou mesmo transtorno bipolar”, disse Putnam. “É uma área onde a recompensa dos montantes menores tem sido bastante dramática”.

Surge um consenso entre terapeutas que crianças traumatizadas estão sendo medicadas em excesso. Só no ano passado, as crianças americanas consumiram 16,3 bilhões de dólares em medicamentos anti-psicóticos. Pesquisadores como van der Kolk e outros dizem que esses medicamentos estão destruindo a capacidade das crianças de se enquadrar no mundo: “Aposto que metade das crianças que tomam esses medicamentos nunca serão membros funcionais da sociedade”, disse ele. “É uma catástrofe nacional”.

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